É muito comum realizarmos o
processamento de um sinal de áudio em função de sua freqüência, isto acontece
tanto nos filtros e equalizadores do canal de entrada de uma mesa de som quanto
nos equalizadores gráficos e crossovers que vem em seguida.
Vamos fazer uma pequena
revisão de alguns conceitos úteis que aparecem ao lidarmos com filtros e
equalizadores.
1 - O que é freqüência:
Todos os sons que
percebemos são flutuações da
pressão do ar acima e abaixo de um valor médio. Chamamos de freqüência ao
número de alternações (ciclos) que ocorrem por segundo na pressão do ar.
A percepção subjetiva que
temos desta característica física
é que nos permite identificar um som de alta freqüência como agudo e um de baixa freqüência
como grave e perceber os diferentes tons de uma escala musical.
A unidade de medida da
freqüência é o hertz (Hz), igual a um ciclo por segundo (1 c/s). Utilizamos
freqüentemente em áudio o
quilohertz (kHz), o múltiplo da
unidade de freqüência igual a 1000 Hz ou 1000 c/s. Se a razão entre as
freqüências de dois sinais for
igual a 2 (f2/f1 = 2, ou seja
f2 = 2.f1), dizemos que os mesmos estão separados
por uma oitava.
2- Filtros
Para lidar com os sinais no
domínio da freqüência um dos tipos de
circuito usados são os chamados de filtros elétricos, os quais deixam passar ou amplificam as
freqüências desejadas e atenuam as
indesejáveis.
Podemos observar na fig. 1 um
gráfico que representa a ação de um filtro ideal: deixa passar sem
nenhuma atenuação as freqüências até fc, a chamada freqüência de corte,
e rejeita completamente todas as outras freqüências. As freqüências até fc definem a banda passante e as
que são rejeitadas a banda de rejeição do filtro. Um filtro descrito por um gráfico como
este não é realizável fisicamente e um filtro real somente conseguirá aproximar
o seu comportamento. O ganho G do filtro é dado pelo quociente
entre a tensão de saída e a de
entrada, e o ganho em dB é dado
por vinte vezes o logaritmo na
base 10 de G.
G = Vo/Vin
GdB = 20.log(G)
Apresentamos o gráfico da resposta de freqüência de um filtro normalmente com o ganho em dB no eixo y
(ordenadas) e a freqüência no eixo dos x (abscissas), em escala logarítmica.
Quando as freqüências
rejeitadas estão acima da freqüência de corte (f>fc), temos um filtro do
tipo passa-baixas (PB).
Podemos ter também filtros passa-altas
, se rejeitarmos freqüências
abaixo de fc (fig. 2) ou passa-banda
se a faixa passante estiver entre
duas freqüências f1 e f2 (fig. 3).
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Um filtro real atenua
gradualmente as freqüências fora da faixa passante e o gráfico resultante tem
uma inclinação medida em dB/oitava ou dB/década, como mostrado esquematicamente
na fig. 4 para um filtro de 2ª ordem passa-baixas .
Um filtro real tem uma
resposta de freqüência cujo gráfico é mais suave como abaixo:
Filtro passa-baixas

Filtro passa-altas

Filtro passa-banda

Filtro rejeita-banda

Um número ou parâmetro importante para a descrição dos filtros
passa-banda será o seu fator de qualidade Q, o qual é uma medida da largura de
sua banda passante em função da freqüência central do filtro, f0 = Öf1*f2 e dado pela expressão:
Q = f0/(f2-f1)
Onde f2 e f1
são as freqüências de -3 dB do filtro.
O exemplo acima é de um filtro
com Q= 1,4 aproximadamente, com uma faixa passante de 1 oitava aproximadamente
(f2=1400 Hz, f1=700 Hz).
Costumamos medir a largura de
faixa dos filtros passa-banda em oitavas ou frações de oitava como 1/2 ou 1/3
de oitava.
Filtros passa-altas e passa-baixas
são empregados nos canais de entrada das mesas de som, nos crossovers e, em
conjunto com filtros passa-banda, nos equalizadores gráficos, definindo os
limites da resposta de freqüência do canal ou equipamento e suprimindo os
sinais que não desejamos.
Um uso típico para um filtro
passa-altas é cortar os graves que não queremos no canal do contratempo ou
Hi-Hat.
Veremos a seguir os
equalizadores gráficos e paramétricos, que são exemplos de uso dos filtros
passa-banda ou rejeita-banda.
Fomos apresentados no artigo
anterior aos filtros elétricos, os quais usamos para eliminar sinais
indesejáveis que possam estar contaminando o nosso precioso sinal de áudio.
Agora vamos abordar uma
importante classe de ferramentas colocadas à disposição do técnico de áudio: os
equalizadores.
Chamamos de equalizadores aos
circuitos que modificam a resposta de freqüência de um sistema de acordo com
nossas necessidades, seja para compensar as deficiências acústicas de um local,
obter o timbre que desejamos para um determinado instrumento, ou atender a um
padrão como o RIAA, que compensa as características de gravação e reprodução
dos discos de vinil com cápsulas magnéticas (lembram deles?). Os equalizadores
irão moldar a resposta de freqüência do sistema de forma mais suave que os
filtros, tendo sua ação limitada à cerca de +/- 15 dB, tipicamente.
Podemos dividir os
equalizadores em:
1.
Fixos, como os RIAA e NAB
encontrados nos pré-amplificadores para
cápsulas magnéticas e gravadores de fita cassete ou de rolo. São
circuitos dedicados, incluídos nos
equipamentos citados.
2.
Variáveis, como os
controles de tonalidade dos pré-amplificadores, os equalizadores gráficos e os
paramétricos ou semiparamétricos.
Os fixos têm suas
características predeterminadas pela aplicação e não devem ser alterados.
Os variáveis são as nossas
ferramentas de trabalho para buscar a sonoridade que desejamos em um sistema de
som e conseguir o máximo de ganho
antes da microfonia (realimentação acústica).
Vamos analisar os diferentes
tipos de equalizadores variáveis:
a)
Controles de Tonalidade
São
a configuração mais simples de equalização e podem ter apenas dois controles, um para graves (baixas
freqüências), atuando em torno de 100 Hz, e outro para agudos (altas
freqüências) atuando em torno de 10 kHz, cada controle permitindo uma variação
de ganho entre + 15 e
–15 dB nas freqüências nominais e acima ou abaixo destas, com uma queda
suave de 4dB/oitava até cerca de uma década abaixo ou acima dos pontos de
atuação, formando um degrau no gráfico da resposta de freqüência que lhes dá
seu nome em inglês (shelving equalisers).
Fig.1
- Um controle de graves reforçando e atenuando 7 dB em 100 Hz

Alguns
controles de tonalidade mais elaborados
possuem um ou dois controles de médios, os quais atuam sobre uma faixa com freqüência central e
largura de banda fixas, sendo
também chamados de equalizadores tipo "peaking" ou "bell"
por sua natureza passa ou rejeita banda.
b)
Equalizadores gráficos
No
passado, os pioneiros no uso de
filtros de faixa estreita para controle da microfonia (realimentação acústica)
construíam em campo conjuntos de filtros
com indutores, capacitores e resistores sintonizados exatamente nas freqüências
críticas das salas [1] com auxílio de alicate de corte e ferro de solda.
O
desenvolvimento da técnica e da eletrônica de estado sólido trouxe ao mercado
conjuntos de filtros passa ou rejeita-banda com largura de faixa de 1/1, 2/3,
1/2 ou 1/3 de oitava e freqüências centrais fixas, sendo 1/3 de oitava o melhor
compromisso entre resolução,
complexidade de ajuste (são 31 bandas para cobrir todo o espectro de
áudio) e circuito.
O
ganho ou atenuação em cada banda
pode ser ajustado através de um potenciômetro deslizante, por uma questão de
facilidade de uso, tipicamente
em uma faixa de +/- 12
ou +/-15 dB.
Como
a posição dos controles deslizantes simula uma curva de resposta de
freqüência, este tipo de
equalizador passou a ser chamado de gráfico, embora a real resposta do equalizador se afaste bastante da sugerida
pela posição dos controles no painel
Filtro equalizador passa-banda
1/1 oitava em posição de reforço 6 dB

Filtro equalizador
rejeita-banda 1/1 oitava atenuando 6 dB

c)
Equalizadores paramétricos
Estes
equipamentos possuem seções com controles que atuam de forma independente sobre
os três parâmetros principais de um filtro: sua freqüência central, largura de banda passante ou fator
de seletividade Q e a quantidade
de reforço ou atenuação aplicada ao sinal.
Equalizadores são ferramentas
fundamentais para o técnico de
áudio tanto para alinhar os sistemas em sua resposta de freqüência quanto para
obter o timbre adequado de cada instrumento ou voz.
É preciso saber onde, quando e
como usá-los para obter o máximo de rendimento de nossos sistemas de som.
Apresentei nos parágrafos
anteriores os equalizadores de uma forma geral, agora vamos nos deter em
dois tipos importantes, os gráficos
e paramétricos.
Equalizadores gráficos
Conforme
visto no artigo anterior, os equalizadores gráficos são conjuntos de filtros
com freqüência central e largura de banda fixa, cuja atuação em dB é ajustada
por controles deslizantes.
Costumam
ser classificados por sua largura de banda em equalizadores de 1/3, 1/2, 2/3 ou 1/1 oitava. Para cobrir o
espectro de áudio, disporemos de 31, 20, 15 ou 10 filtros igualmente espaçados
entre si, correspondendo às resoluções citadas, com freqüências centrais
padronizadas pela ISO.
O
significado disto é que a razão entre as freqüências dos pontos de -3 dB (BW-3)
dos filtros do equalizador será igual a 2 1/3= 1,26 ou 2 1/2=
1,41ou 2 conforme o caso.
Os
filtros usados nos equalizadores são simétricos em relação à sua freqüência
central, a qual será sempre a média geométrica de f1 e f2
e teremos metade da largura de banda entre f1 e f0 e
entre f0 e f1. Estes filtros também são chamados de
filtros com largura de banda percentual constante.
Por
exemplo:
Um
filtro com f0 = 1kHz e BW-3 = 1 oitava teria f1 e f2 (pontos
de -3dB) em 707 e 1414 Hz aproximadamente, de forma que f2/f1
= 2 (1 oitava), e f1/f0 = 0,707 = 1/ 2 1/2
assim como f2/f0 = 1,414 = 2 1/2 . A
largura da faixa de passagem (em
Hz) será de 707 Hz, neste caso. Para um filtro com f0 = 2kHz, os
pontos seriam em 1414 e 2828 Hz mantendo a mesma porcentagem de f0,
mas com largura em Hz de 1414 Hz.
Um
filtro com f0 = 1kHz e BW-3 = 1/3 oitava teria f1 e f2 (pontos
de -3dB) em 891 e 1122 Hz aproximadamente, de forma que f2/f1
= 2 1/3 (1/3 de oitava). Neste caso, a largura de faixa (em Hz) será
de 231 Hz.
Vejam
na figura 1 a simulação do efeito de um filtro de 1 oitava (linha contínua)
comparada com o de outro com 1/3 de oitava (linha pontilhada), ambos cortando 9
dB na freqüência de 1 kHz.
Fig.1

Observe que o filtro de 1
oitava já atenua 3 dB em 500 Hz e o de 1/3 de oitava faz o mesmo em cerca de
750 Hz. Fica clara a necessidade do uso de filtros de largura estreita de banda
para atacar ressonâncias sem afetar componentes importantes do sinal musical.
Uma característica importante
nos equalizadores gráficos será a existência ou não de variação no Q dos
filtros em função da atuação dos controles, isto é, se a largura de banda
permanece a mesma para diferentes níveis de atuação (por exemplo: -3,-6, -9 ou
-12 dB). Os chamados equalizadores de Q constante, cujo Q não se altera
conforme a atuação dos controles (reforço ou atenuação), permitem uma atuação
mais precisa e previsível [2], sendo preferidos para uso em conjunto com
analisadores de espectro e ruído rosa* e no combate a microfonia em situações
críticas. Existem alguns projetos
já clássicos que não tem Q constante mas cuja atuação é considerada mais
adequada ou "musical" para obter-se o timbre desejado sem
instrumentos de medição. Numa instalação fixa, talvez o ideal seja usar um equalizador de Q constante
alinhado durante a instalação e fora de alcance do operador, complementado por
um tradicional para timbrar o
sistema e um paramétrico capaz de inserir filtros de 1/6 ou 1/12 de oitava para
obter-se o máximo de ganho antes da microfonia.
Outra característica
importante será a forma de combinarem-se duas ou mais seções de filtro,
combinação esta que deve gerar uma ondulação na resposta de freqüência menor
que 1 dB.
* ruído rosa é um sinal de teste que tem energia
constante por largura percentual de banda constante.
Os equalizadores são um dos
pontos cruciais de um sistema de áudio, e sua correta escolha e operação podem
definir o sucesso no uso do mesmo.
Falamos anteriormente
sobre os equalizadores gráficos de
Q constante e suas vantagens no alinhamento de sistemas em conjunto com
analisadores de espectro de 1/3 de oitava.
Vamos observar agora o que acontece quando usamos dois
filtros seja em bandas adjacentes
ou intercaladas.
Primeiro, dois filtros, um em
800 Hz e outro em 1,25 kHz, acentuando 9 dB na situação de Q constante e não
constante.

Podemos observar que a atuação
de dois controles alternados afeta a banda intermediária de forma
considerável, mais ainda para o
caso do Q não constante.
Esta degradação da largura de
banda pode ser pior em pequenas atenuações ou reforços, no caso dos
equalizadores de Q não constante.
É muito importante saber como
se somam as atuações de bandas vizinhas.
Duas ou mais seções devem se
combinar com um mínimo de ondulação. Os filtros que se comportam desta forma
são chamados de combinantes.
Os projetos de Q não constante conseguem boa combinação, mas os problemas de
variação da largura de banda em função do ganho persistem.
Os equalizadores de Q
constante permitem a formação de pequena ondulação (ripple) na curva resultante
da atuação em dois controles vizinhos e isto não é muito desejável, pois ao
atuarmos em dois controles vizinhos,
muitas vezes queremos atingir uma freqüência intermediária, mantendo o filtro resultante com a mesma
largura de banda. Os projetos que realizam um tipo de filtro que satisfaz esta
condição são chamados de interpolantes
e combinam as vantagens de um projeto de Q constante com a possibilidade de
atuarmos entre as freqüências padrão ajustando duas bandas vizinhas.
Podemos observar nos gráficos
abaixo a atuação de dois controles, em 1kHz e 1,25 kHz, reforçando 9 dB.

Conclusão Final - Equalizadores Gráficos
Os Equalizadores gráficos são
ferramentas fundamentais para o técnico de áudio, mas devemos conhecer suas
características em profundidade para aplicá-los corretamente e alcançar os
resultados desejados com rapidez.
Estes são os equalizadores
mais flexíveis que dispomos para nosso trabalho, aqui poderemos escolher a
quantidade de reforço e atenuação, a freqüência central de atuação e a largura
de banda dos filtros, ou seja temos acesso a todos os parâmetros
que descrevem o equalizador.
Os equipamentos possuem de
duas a doze seções com três controles:
¨
Ganho, calibrado em dB e
com atuação de +/- 15 ou 20 dB
¨
Freqüência, em Hz ou kHz
¨
Q ou BW (bandwidth), usualmente calibrado em frações de
oitava
Ref.
1 - Davis, Don; Davis,
Carolyn; Sound System Engineering; 2a ed., 1987, SAMS Books.
2 - Cysne, L. F. O. ; Áudio
Engenharia e Sistemas, H. Sheldon
ed.,1990.
3 - Equalizadores Gráficos de
Q Constante; Rane Note 101; Bohn, Dennis; Pennington, Tony; Revista Backstage no
60
Apresentamos a resposta em
freqüência dos filtros exemplo em gráficos com o ganho em dB (decibéis) no eixo dos y e a freqüência em Hz, de forma logarítmica,
no eixo dos x. O uso de escalas logarítmicas como o decibel, que lineariza a
divisão do eixo dos y, ou a divisão logarítmica do eixo dos x, permite
comprimir em um espaço aceitável uma faixa grande de freqüências e de variações de ganho ou nível de sinal,
tal como encontramos no áudio, e
ajusta-se à forma também logarítmica com que percebemos as variações de
freqüência e nível sonoro.
A resposta em freqüência de um
equipamento é levantada aplicando um sinal senoidal com amplitude constante na
entrada do mesmo e medindo a variação da amplitude de saída, obtida ao
variarmos a freqüência do sinal de entrada. O resultado será dado em dB, com
relação à amplitude de entrada.
Copyright Alvaro C. de A.Neiva (1999-2007)
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